Estou perdendo xixi! E agora?

A verdade que ninguém te contou, e como recuperar o controle

Escolhe a roupa pensando na cor.
Calcula a distância até o banheiro.
Ri com cautela. Evita impacto.

Não por falta de vontade.
Mas por medo de perder o controle outra vez.

À noite, dorme leve, não por escolha, mas por medo de precisar levantar de novo.

Perder urina nunca foi normal.
Nem agora.
Nem com a idade.

Do ponto de vista clínico, a incontinência urinária é definida como a perda involuntária de urina, causada por falhas no sistema que deveria garantir continência: músculos do assoalho pélvico, esfíncteres uretrais, sistema nervoso e mecanismos de suporte da pelve.

Quando esse sistema perde eficiência, situações simples como rir, tossir, correr, sentir vontade de urinar, passam a gerar insegurança.

O corpo avisa, o cérebro entra em modo vigilância, e o impacto não fica restrito à bexiga.

Estudos mostram associação direta entre incontinência urinária, queda da autoestima, ansiedade, depressão, isolamento social e prejuízo da qualidade de vida.

Por isso, tratar não é luxo.
É necessidade funcional e emocional.

A prevalência é alta.

Os números ajudam a entender a dimensão do problema: a incontinência urinária é duas vezes mais frequente em mulheres, afetando cerca de 40% acima dos 40 anos.
Após os 70 anos, o risco aumenta de quatro a cinco vezes, principalmente por alterações hormonais, perda de colágeno, mudanças neuromusculares e sobrecarga crônica do assoalho pélvico.

Mas aqui está o ponto crucial:

👉 Alta prevalência não significa normalidade.

Nos homens, a fisiologia muda principalmente após cirurgias prostáticas.

Procedimentos como a prostatectomia podem comprometer estruturas essenciais para a continência, como o esfíncter uretral e os mecanismos neuromusculares de suporte.
O resultado é uma perda urinária que não tem relação com idade ou força de vontade, tem relação com anatomia e função.

E junto com a perda, muitas vezes vem o silêncio, a vergonha e a sensação de perda de autonomia.

Mas isso não fala sobre fragilidade.
Fala sobre fisiologia alterada.

E sim, crianças também podem apresentar incontinência.

O controle urinário costuma se desenvolver até os cinco anos, mas quando a perda persiste, chamamos enurese noturna, e ela pode gerar impacto emocional importante, tanto para a criança quanto para a família.

Vergonha, ansiedade, medo de dormir fora de casa, noites sem dormir por causa de constantes trocas de roupa de cama, aparecem cedo quando o problema não é conduzido de forma adequada.

Existem fatores de risco bem estabelecidos na literatura científica:
diabetes, obesidade, doenças neurológicas, menopausa, cirurgias pélvicas, alterações prostáticas.

Todos eles interferem, direta ou indiretamente, no funcionamento da bexiga e do assoalho pélvico.

O corpo não perde urina “do nada”.
Ele responde a algo que está errado.

Do ponto de vista clínico, os quadros mais comuns são bem definidos.

Na incontinência urinária de urgência, há hiperatividade do músculo detrusor. A bexiga se contrai antes da hora, gerando desejo súbito, intenso e difícil de controlar, muitas vezes acompanhado de despertares noturnos para urinar e assim, fragmentação do sono. O corpo não descansa, e a mente também não.

Na incontinência urinária de esforço, o problema está na incapacidade do assoalho pélvico e dos esfíncteres de resistirem ao aumento da pressão abdominal durante tosse, riso, corrida ou levantamento de peso.

Em ambos os casos, o impacto psicológico costuma ser subestimado, mas é real.

É exatamente por isso que o tratamento precisa ir além de devolver continência. Precisa devolver segurança.

A fisioterapia pélvica é considerada, segundo a Sociedade Internacional de Continência, o tratamento de primeira linha para diversos casos de incontinência. Ela atua diretamente na causa funcional do problema.

O processo começa com uma avaliação funcional detalhada:
força, resistência, coordenação, tempo de resposta muscular, padrões respiratórios, hábitos miccionais e interferências posturais.

A partir disso, o tratamento pode incluir:

  • manejo específico para fortalecimento e coordenação do assoalho pélvico
  • uso de biofeedback, que melhora a consciência e o controle neuromuscular
  • eletroestimulação, quando há dificuldade de recrutamento muscular
  • reeducação de hábitos urinários e estratégias comportamentais
  • ajustes posturais e respiratórios para reduzir sobrecarga sobre a pelve

Tudo baseado em evidência científica e individualização clínica.

Não é genérico.
Não é improvisado.
É fisiologia aplicada.

Quando o tratamento certo começa, os resultados aparecem.

A literatura mostra redução significativa, e muitas vezes completa das perdas urinárias, diminuição do uso de absorventes, melhora do sono, da vida social e da função sexual.

O corpo volta a ser previsível.
A mente relaxa.
A vida se expande novamente.

A incontinência urinária tem tratamento.
E quanto mais cedo ele começa, melhores são os resultados funcionais e emocionais.

O corpo não está falhando.
Ele está pedindo intervenção baseada em ciência, e ela existe.

Post anterior
Próximo post

Samantha Vieira

Fisioterapeuta Pélvica

© 2025 Samantha Vieira - Todos os direitos reservados.